Terra, ano espacial 2052. Memórias de viagem
de um estudante de ecologia planetária que fez um estágio de 60 dias como parte
do trabalho final do curso.
Cheguei à Terra no dia 2 de janeiro, calendário
terrestre. Minha nave pousou em São Paulo às 15 horas de
um dia quente e chuvoso. São Paulo é a mais populosa cidade da Terra
atualmente. Ainda assim, muito menos populosa do que foi no passado.
Os registros históricos dão conta de que, na
era pré-espacial, chegou a contar com mais de 20 milhões de habitantes. Ainda
mais assustador é pensar que, naquele momento, não era a cidade mais populosa
do planeta. Atualmente, dos cerca de 50 milhões de habitantes da Terra, um
milhão vivem em São Paulo.
A Terra começou a se esvaziar quando a
tecnologia das cúpulas de biosfera se desenvolveu e permitiu à humanidade viver
em outros corpos celestes. Primeiro na nossa Lua, depois em Marte, nas luas de
Júpiter e Saturno. E agora começamos a planejar a ocupação das luas de Urano,
mais à frente de Netuno e quem sabe um dia Plutão. Alguns acreditam que em algum momento seremos
uma espécie interestelar, mas quanto a isso eu sou cético, mas já estou
divagando muito. O fato é que as cúpulas emulam com perfeição a atmosfera
terrestre, permitindo a espécies que evoluíram na Terra viverem espalhadas pelo
sistema solar. Podemos controlar a temperatura e mesmo a luminosidade
artificial consegue reproduzir a radiação solar na intensidade de uma latitude
média da Terra. Os avanços médicos garantem um adequado
desenvolvimento muscular mesmo em ambientes com menor gravidade que a Terra.
Então com todas as possibilidades econômicas, cada vez mais terráqueos passaram
a viver nas colônias espaciais. Há cerca de mil anos a população na Terra havia
diminuído tanto que a capital passou a ser em Marte e mais recentemente na Lua
Europa.
A diminuição da população da Terra teve um
efeito benéfico sobre os exauridos recursos planetários. Aliados com políticas
de restauração, muitas das antigas áreas selvagens foram regeneradas. A Terra
toda foi transformada em uma reserva de vida selvagem, com sua exploração sendo
muito restrita.
Evidentemente, nem tudo é perfeito. Muitas
pessoas enriqueceram muito nas colônias. A maioria, empresários do setor de
mineração. Os variados e abundantes recursos minerais em
diferentes corpos do sistema solar criaram uma economia poderosa, embora não
seja igualitária. Entre os muito ricos, há aqueles que utilizam seus vastos
recursos de maneira esbanjadora ou extravagante. Um grupo específico, cada vez
maior, resgatou um costume cruel e antigo da Terra. No nosso passado distante, ricos,
principalmente da Europa ou América do Norte, viajavam ao continente africano
ou asiático para caçarem grandes animais. Búfalos, elefantes, girafas, tigres,
leões, zebras e tantos outros. Agora, os magnatas da era espacial viajam para
a Terra com o mesmo objetivo. Pagam grandes somas de dinheiro para grupos
criminosos na Terra os levarem de áreas remotas do planeta para matarem por
esporte esses mesmos animais.
O Instituto da Restauração Global, chamado mais
usualmente de Restauradores, foi criado logo depois que a Terra foi considerada
reserva de vida selvagem permanente. Não bastava conservar, mas era necessário
restaurar o quanto fosse possível a combalida ecosfera terrestre. O grupo saiu bem, em grande parte, pela nossa
experiência com as cúpulas de biosfera. Assim, mesmo animais muito próximos da
extinção foram salvos e retornaram aos seus ambientes. Porém, com o aumento da
caça esportiva ilegal, o Instituto da Restauração teve que, além de se
preocupar com pesquisas e restauração de biomas, exercer a fiscalização.
Ao redor do globo foram criados diferentes
grupos de combate aos traficantes e caçadores ilegais. Esses grupos utilizam
nomes da fauna local. Por exemplo, na América do Sul, o principal grupo de ação
contra os traficantes e caçadores é o Jaguar. Há outros, como o grupo Ariranha, que atua
próximo aos rios, ou o grupo Harpia, que utiliza drones. Na América do Norte, o
grupo Lobo e Urso. Na África, o grupo Elefante. Na Ásia, o Tigre e por aí vai. Foi por fazer
um estágio com esses grupos que viajei à Terra. A ecologia planetária é uma
profissão muito valorizada nas colônias, mas, no fim das contas, é tentar
reproduzir nas cúpulas o que existe na Terra. E os restauradores e os grupos do Fauna são os
que mais conhecem a Terra. Minha ideia era ficar apenas nos centros de pesquisa
e restauração, mas, quando estava na região Amazônica, fui convidado a
acompanhar uma ação do grupo Ariranha contra caçadores ilegais na região. A
líder do grupo era Suri Alvera. Alvera largou o emprego muito bem remunerado,
como responsável pela cúpula de uma lua de Júpiter, para se tornar uma guardiã
no grupo fauna. O grupo Harpia identificou, por ar, um grupo de caçadores
ilegais e avisou o grupo Ariranha. Partimos imediatamente em lanchas, muito
rápidas, pelos rios, até a localização enviada pelo grupo Harpia. Esqueci de dizer, a essas alturas eu já
não utilizava a máscara para respiração. Desnecessário dizer como os moradores
da Terra acham esse hábito idiota. Nós que crescemos nas cúpulas sempre ouvimos
que era perigoso e um hábito bárbaro respirar diretamente da atmosfera
terrestre. Oras, as cúpulas nada mais fazem do que
reproduzir a atmosfera terrestre. Particularmente, considero respirar diretamente a
atmosfera da Terra uma experiência única que nos coloca em contato com nossa
Mãe Cósmica. O mesmo tipo de experiência que tive entrando na água de rios e
oceanos e pisando descalço na Terra. Mas, novamente, estou divagando. De volta ao
relato. Percorremos rapidamente e em silêncio um grande trecho dos rios
amazônicos. Eram três embarcações. Confesso que estava tenso, pois os caçadores
utilizam munições letais. Essas armas são proibidas há muito tempo, mas os
grupos criminosos que organizam as caçadas na Terra possuem enormes toques
delas. Já os agentes do grupo fauna não as utilizam. Um membro do grupo me tranquilizou sobre isso. Muitas vezes há confrontos físicos contra traficantes e seguranças dos caçadores. Mas eles não costumam utilizar armas de fogo contra os agentes. Por um motivo muito simples. O uso das armas de fogo é proibido de qualquer forma, assim como o homicídio cometido de qualquer forma. Porém, por força de lei, o uso de arma de fogo é um agravante que costuma aumentar muito as penas de qualquer eventual condenado. Mesmo assim, fiquei em segurança na embarcação,
mas acompanhei toda a ação pelos monitores que reproduziam as cenas
transmitidas por câmeras corporais e drones. Foi uma operação rápida. Era um
grupo de 18 pessoas, sendo 6 caçadores e 12 guias contratados para levá-los.
Sem uso das armas de fogo, de forma curiosa, apesar de todo o
nosso avanço tecnológico, tanto os guias e seguranças dos caçadores ilegais
quanto os agentes do grupo fauna, quando entram em confronto, utilizam uma das
armas mais antigas da humanidade. Bastões. Obviamente não mais
bastões de madeira ou de ossos, mas feitos de material sintético. Todos os caçadores ilegais, guias e seguranças foram presos.
Infelizmente, dois jaguares mortos foram
apreendidos. Suas peles e dentes são muito valorizados nas colônias,
principalmente de Saturno. Justamente por isso, nesse caso específico, os
caçadores não eram magnatas caçando apenas para satisfazerem seus egos, mas
traficantes espaciais que pretendiam revender partes desses animais. Os valores são insanos para peles e dentes
desses animais, já que são suficientes para pagarem a viagem, guias e ainda dão
lucros gigantescos. Essa foi apenas a primeira das operações de combate ao
tráfico e caça de animais que acompanhei.
É curioso pensar que no passado a
mineração causou muita destruição ao planeta. Atualmente, mesmo que ainda existam algumas
reservas de minérios importantes no planeta, não há mais praticamente
exploração, exceto por pequenas operações locais para atender demandas
específicas. A mineração ilegal não é uma preocupação para agências de
restauração, já que não há nenhuma possibilidade de lucro para eventuais
traficantes. Há possibilidades de mineração muito maiores nas colônias, mas a
vida selvagem terrestre é e sempre será inigualável.
Há casos de criação de áreas de vida selvagem
nas colônias, mas ainda são empreendimentos muito complexos e caros, e para
caçadores ilegais, com muitos recursos, caçar na Terra é o grande desejo. A
segunda operação do grupo Fauna que acompanhei foi em alto mar. Assim como
grandes animais terrestres são muito caçados, grandes animais marinhos são
objetos de desejo de muitos deles.
Essa operação foi realizada pelo grupo Orca e
comandado por Kael Navarro. Navarro nasceu na Terra, em uma comunidade
litorânea. A pesca em pequena escala ainda é praticada por esses grupos, mas
muito longe da pesca em escala industrial, que levou à extinção de muitas
espécies marinhas no passado. Navarro estudou oceanografia e biologia
marinha, como muitos do grupo Fauna, e recusou empregos muito bem remunerados
nas colônias para trabalhar na proteção terrestre, no seu caso específico, os
oceanos. Devo dizer que a segunda operação foi ainda muito mais tensa, há uma
dificuldade inerente à fiscalização dos oceanos, que é o tamanho. Drones
marinhos vasculham águas do mundo todo em busca de qualquer ação suspeita, mas
com certeza muita coisa escapa dos drones e dos satélites. Dessa vez, porém, uma mensagem chegou até uma
embarcação do grupo Orca, um barco pesqueiro ilegal e sua escolta. Eu estava na
embarcação do Orca, que recebeu o alerta. Outras duas embarcações também foram
para o local, estavam caçando tubarões. O grande objetivo eram os tubarões brancos,
lendário predador dos mares. Quando avistaram o barco do Orca, tentaram fugir,
mas foram surpreendidos pela chegada de outros dois. Disparou-se munição não letal mas capaz de ferir. Um agente do Orca caiu e foi ferido ao meu
lado. Houve uma ordem, não sei se de Navarro, para que eu pegasse o bastão do
agente abatido. Fiquei assustado, mas obedeci. Quando dei por mim, estava envolvido em uma
batalha contra guias de caça e caçadores ilegais. A embarcação que eu estava se
aproximou da embarcação principal, onde estavam os caçadores. A luta ficou
ainda mais encarniçada.
Vi Navarro e outros agentes trocando socos contra guias e guarda-costas dos caçadores.
Então, algum tempo depois, chegaram mais reforços. Eram embarcações dos grupos
Arraia e Cachalote. Então, o confronto terminou. Dessa vez, muitos
agentes estavam feridos.
Mais de 20 guias ilegais e outros tantos
caçadores estavam presos. Uma pena que, com seu poder econômico, provavelmente,
logo estariam soltos. Algum tempo depois, Navarro veio falar comigo. Tinha um olho roxo e sangrava de vários
cortes, mas disse que estava bem. Me contou de uma abordagem anterior nas
Filipinas, quando tinha quebrado o braço. Ele é um
grande cientista, mas na Terra de hoje, todos esses grandes cientistas também
são a linha de frente contra caçadores ilegais e aqueles que os apoiam. Navarro se desculpou por ter me envolvido na
luta, mas também me elogiou por ter me saído bem sem treinamento. Agradeci, mas
omiti o fato de praticar boxe na faculdade. Depois desse evento,
passei pela Austrália, Europa e a Ásia.
A África foi a última etapa da minha viagem e
lá tive uma terceira experiência ao lado do Grupo Fauna, mais especificamente
ao lado da mais icônica líder da fauna, Elan Montiel Mendes. Dizem que ela é
descendente direta de um grande líder ambientalista da América do Sul, ainda do
período pré-espacial, quando a Terra ainda era dividida em Estados nacionais.
Mas isso foi há tanto tempo que nem ela sabe afirmar com certeza isso. O fato é que ela deu uma contribuição decisiva
ao Grupo Fauna, no momento em que passava por mais dificuldades. Nativa da
terra, mas vivendo em Marte, tornou voz ativa na luta por mais recursos ao
grupo. Foi a primeira grande cientista a abandonar um alto cargo na colônia e
voltar para a terra para lutar contra caçadores ilegais.
No momento está à frente do grupo Rinoceronte
e há anos comanda uma grande investigação que procura desmantelar a rede ilegal
de guias legais de caça. Trata-se hoje da principal atividade ilegal da Terra,
que movimenta enormes quantias de dinheiro e envolve muitas pessoas. Aos guias
propriamente ditos, aos guardas que fazem a segurança, a fornecedores de armas
e veículos, muitos magnatas que caçam animais mantém casas na terra. Muitos troféus vão para essas casas, mas
também há aqueles que querem exibi-los em suas mansões, nas colônias. Nesse
caso, há ainda gastos para fazer o transporte ilegal para fora da terra. Mendes
sempre soube que as ações isoladas contra os caçadores são importantes, mas que
não são suficientes para acabar de vez com o problema.
Para isso seria necessário desarticular as
redes que viabilizam as caçadas ilegais. E quando a encontrei, ela estava
prestes a desferir um duro golpe contra uma dessas organizações. Ao longo de
muitos anos, Mendes montou uma complexa rede de informantes e espiões.
Com muito trabalho, conseguiu infiltrar alguns
agentes e cooptar pessoas de dentro de várias dessas organizações. Duas semanas
antes da minha chegada à terra, Mendes recebeu a informação de que uma enorme
operação de caça ilegal iria se desenrolar. Como nos velhos tempos do
imperialismo europeu, estavam atrás dos grandes animais das savanas e selvas
africanas.
Dezenas de magnatas de mineração espacial
eram os clientes. Isso significava que centenas de pessoas estariam
envolvidas nas atividades auxiliares, seguranças, motoristas, guias. Além dos
magnatas, caçadores, empresas de biotecnologia também estavam envolvidas. Nesse caso, caçadores contratados deveriam
fornecer partes de animais para serem enviados legalmente para as colônias. Uma
ação bem sucedida contra a sua operação era prioritária. Quando cheguei na sede
do grupo Elefante, líderes de outros grupos da Fauna também estavam lá. Seria uma operação conjunta e eu iria
participar integrado ao grupo Avestruz. Partimos de madrugada, às quatro da
manhã, hora local. O grupo Avestruz utiliza veículos leves e rápidos. Todas as unidades africanas do Fauna estariam
envolvidas e mesmo algumas de outros continentes como membros da unidade Tigre
da Ásia e Jaguar da América do Sul. Era um imenso acampamento. As diversas
unidades do grupo Fauna chegaram por todos os lados e cercaram os caçadores.
Foi por volta das seis e cinco que teve início
o conflito. Minha unidade abandonou os veículos e avançou a pé. Estávamos atrás
de algumas árvores do lado leste. Pelo lado oposto, Mendes comandava
sua unidade. E essa luta foi ainda muito mais encarniçada do que a anterior que
participei. Via segurança e traficantes trocaram socos e golpes com
bastões. Luta com bastões fazem parte do treinamento de todas as unidades do
fauna, bem como lutas diversas. Vi Elan Montiel, um membro
da unidade Lobo, ser cercado por quatro ou cinco seguranças e traficantes. Era
uma luta de bastões. Apesar da desvantagem numérica, Montiel é
praticante de uma antiga luta com origem nas ilhas Filipinas. Tudo ocorreu de
forma tão rápida que tenho dificuldades em narrar. Mas ele se esquivou do
primeiro ataque e com uma agilidade que não consigo expressar, acertou seu
bastão na cabeça do atacante. O primeiro adversário foi um nocaute. No momento seguinte, bloqueou o ataque de um
segundo adversário e contra-atacou. Mais um nocaute. Quando consegui raciocinar
e ajudá-lo, já não era necessário. Ele havia derrubado todos e continuou
avançando.
A batalha chegou ao seu último momento quando Mendes, à frente da
unidade Rinoceronte, chegou a um laboratório onde vários animais capturados
estavam presos para extração de órgãos que seriam levados para as colônias onde
seriam utilizados das mais diversas formas. Cheguei apenas depois que a luta já
havia acabado e só posso imaginar a intensidade do combate.
Muitos feridos de ambos os lados. Mendes
algemava pessoalmente o homem que era apontado como grande chefe de toda a
operação de caça. O saldo final foi bastante favorável. Caçadores, traficantes e guias ilegais presos
e um enorme prejuízo ao grupo que organizaram a expedição. Os dobramentos
jurídicos ainda estão se desenvolvendo e provavelmente serão lentos. É quase
certo que os grandes magnatas irão se safar, mas uma das maiores quadrilhas de
organização de caçadas ilegais sofreu um grande golpe. Muitos de seus homens estão presos, inclusive
alguns com posições elevadas e que serão de difícil substituição. Laboratórios
e empresas de biotecnologia que também estão envolvidos são muito poderosos e
conseguem influenciar muitas pessoas no governo. A demanda ainda existe.
Apesar dos riscos e custos, muitos magnatas e
empresas ainda estão dispostos a contratar serviços de caçadores ilegais.
Enquanto existir a demanda, existirá a oferta.
Dois anos depois:
Eu acabei de
acertar minha demissão de especialista de ecologia da cúpula de Titã. Desde que voltei da Terra, estou em contato
com o grupo Fauna. Semana passada fui convidado por Mendes para trabalhar com a
unidade Puma na América Central. Confesso que não precisei pensar muito. Aceitei de cara. Minha vida seria mais
confortável em Titã, mas depois de conhecer a Terra e o grupo Fauna, não seria
possível escolher outro rumo. Um passado distante, a humanidade levou à
extinção muitas espécies e isso quase nos custou nossa própria existência. Hoje estamos em outros corpos do sistema
solar, mas mesmo que um dia consigamos ir ainda mais longe, eterno será nosso
débito com a Terra e outras espécies. Nossas irmãs, filhas da mesma mãe
cósmica.
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