O baixista e o policial.

Essa foi uma história surreal, a mais surreal da qual eu consigo me lembrar. Ela começou bem macabra, com uma garota desaparecida em uma pequena cidade no interior do país. Uma família desesperada, a avó chorosa, o pai em surto na frente das câmeras.

Declarações da polícia dizendo que as buscas continuariam até que chegou ao fim de forma trágica. Um corpo, o corpo da garota desaparecida. A conclusão. Afogada. Uma marca estranha, ferro quente, no braço direito e um corte profundo na mão esquerda. O que movimentava a imprensa local se tornou uma notícia de repercussão nacional, internacional até.

Todo tipo de mentira foi dito. A maioria apelava para o sensacionalismo e para a dor da família. Todos os tipos de especialistas foram entrevistados.

As teses mais incríveis foram levantadas. Assassino Em Série, uma seita satânica. Tudo ficou mais insano quando um jornalista descobriu um caso idêntico em outra cidade ocorrido seis meses antes, mas que não recebeu a mesma notoriedade e atenção. Porém, ao final, nenhuma das linhas de investigação levou a lugar nenhum. Com o tempo, como é natural, o interesse da mídia diminuiu.

A polícia foi se ocupar com outros casos. Mas um único policial se recusou a esquecer o caso. Mesmo contra as orientações seus superiores, ele continuou a buscar pistas sobre o corpo.

Seguindo a linha de um assassinato praticado em algum tipo de ritual. Mas apesar de ter mergulhado de cabeça no assunto, não conseguiu ligar o caso com nenhuma seita ou culto. Foi até uma universidade conversar com um cientista da religião.

Não conseguiu muita coisa. O professor universitário explicou que, em ciências da religião, eles se preocupavam com temas mais sérios. Como o crescimento de certos grupos religiosos, suas relações com o Estado, enfim. Nada sobre cultos ou seitas obscuras. Isso era coisa de filmes, livros de ficção barato. Mas com certeza não era tema de estudo universitário. A visita ao intelectual não lhe deu nenhuma pista. Mas lhe deu uma ideia. Trouxe uma lembrança.

Um primo mais velho que escutava heavy metal quando adolescente. E enlouquecia a avó e a tia. LPs com capas repletas de diabos, caveiras, sangue, espadas e cruzes invertidas.

Ele nunca havia gostado muito. Mas será que o primo poderia ajudar? Uma visita. O primo já era quarentão. Cinquentão, talvez. Não tinha mais os cabelos longos da adolescência, mas ainda gostava de ouvir heavy metal. O policial não falou nada sobre o caso, claro.

Mas caso ele quisesse saber mais sobre seitas situais ou cultos obscuros, quem deveria procurar? Não sabia. Mas sabia uma coisa. A banda favorita dele nesse gênero do Brasil tinha o nome de Cachalote de Aço. Surgiu no início da década de 1980 em São Paulo. Fez muito mais sucesso no exterior do que no Brasil. O vocalista era um showman. O guitarrista, conceituado. O baterista, convidado para grandes bandas estrangeiras. Mas o cérebro discreto por trás do sucesso da banda era o baixista. Leitor voraz de livros sobre misticismo e ocultismo, levou toda essa atmosfera para a banda. Para as letras, para as capas, o visual. Morava em São Paulo. Conseguiria falar com ele? Deu trabalho. Polícia? Não tinha o que falar com a polícia. Tinha um mandado? Não. Então não iria atender. Era por causa da maconha? Não. Deu muito trabalho. Mas enfim, conseguiu. Intermediação de uma jornalista que lhe devia um favor.

O baixista era um sujeito simpático, bem comum. Na casa dos 50 anos. Cabelo grisalho na altura dos ombros e o bigode pareciam estar uns 20 anos atrasados no tempo.

Foi o baixista quem falou primeiro.

“Aceita uma bebida?”

“Café, pode ser?”

“Café? Pensei em uísque. Mas sim, vou pedir para fazer.”

O policial achou um pouco fora do padrão alguém tomar uísque às nove da manhã. Mas achou melhor ficar em silêncio.

“Então como eu posso te ajudar?”

“Senhor, em primeiro lugar, quero te agradecer por me receber. Bom, há alguns meses houve um caso daquele assassinato de uma garota em uma pequena cidade do interior. Seis meses antes, outro caso semelhante ocorreu em uma outra cidade.”

“Assassinato? Eu não vi.”

 “De fato, esse primeiro caso não foi tão falado”.

“Não vi nada sobre nenhum.”

“Passou em todos os canais de TV.”

 Não tenho TV.”

“Nas rádios?”

“Tenho os meus discos do Led Zeppelin para ouvir e só essa vida. Não vou gastar ouvindo essas rádios que só tocam merda.”

“Revistas? Jornais?”

“Prefiro meus livros."

“Bom, o fato é que há uns dois meses uma garota desapareceu. Ela foi encontrada morta dois dias depois. Tinha marcas de cordas nos pulsos e tornozelos.  Também tinha um símbolo estranho marcado a ferro quente no braço direito e um corte profundo na palma da mão esquerda. Mas os exames mostraram que ela morreu mesmo por afogamento. Seis meses antes isso aconteceu em uma outra pequena cidade no Rio de Janeiro. Mas a garota era filha de uma família rica que conseguiu evitar que o caos alcançasse repercussão.”

“Certo, bom... Isso é bem pesado, hein? Mas por que você quis falar comigo? Você acha que algum grupo de jovens macabros que ficam com essas ideias depois de ouvirem as músicas da minha velha banda? Já passamos por isso há muitos anos. Eu nunca vi isso acontecer. E mesmo que acontecesse, não posso ser responsabilizado se algum maluco não sabe separar fantasia de realidade. Imagine, sei lá, se alguém coloca uma máscara preta e começa a perseguir malucos com uma espada. Você vai culpar a editora que publica as revistas?”

“O Batman não usa espada.”

“Eu falava do Zorro. Ah, bom, de qualquer forma, não é por isso.”

“Não acredito que seja por causa de sua música. Mas acredito sim que seja algum tipo de seita, culto, que estão fazendo algum tipo de ritual. Mas eu estive em um departamento da religião de uma faculdade. E esse tipo de assunto não é, digamos, muito popular entre intelectuais. Por outro lado, pelo que apurei, bom, o senhor parece ser um entendido do assunto. Resolvi te pedir ajuda por isso. Você já ouviu algo assim? Já leu a respeito? Sabe de algo que possa ajudar?”

“Um corte na mão? É um pouco vago, mas espere. Ouça, eu tenho um livro. Ele é bem raro. Eu ganhei de uma bruxa em Budapeste quando fizemos um show por lá em 1986. Não, o show foi na Alemanha Ocidental, mas ela tinha nascido em Budapeste. Isso.”

“Uma bruxa?”

“É, uma sacerdotisa, coisa assim.”

 “E ela te deu um livro raro?”

“É, eu a coloquei de graça no show. Enfim, me dê três dias. Você tem uma foto da marca no braço das moças?”

“Sim. Aqui.”

“É. Não me é estranho. Vou precisar reler esse livro. Acho que eu já li algo do tipo nele. Certo, retorno em três dias então.”

“Obrigado.”

Apenas dois dias se passaram quando o telefone do policial tocou.

“Você disse que a palma da mão tinha um corte?”

 “Isso mesmo.”

 “Venha para cá.”

“São quatro da manhã.”

“Eu descobri.”

 Trinta minutos depois.

“Então, descobriu?”

“Quando você falou desse corte, eu sabia que já tinha visto algo a respeito. E o símbolo. Estava no livro. No século XII, um grupo de cavaleiros que voltavam das cruzadas para a França teriam encontrado uma pequena estatueta quando passavam por onde hoje é a Hungria. Ela estava em um pequeno templo sem teto no meio das montanhas. Segundo o livro, os moradores das vilas próximas achavam o local amaldiçoado. Alertaram aos cavaleiros para não entrarem e muito menos retirarem nada de lá. Mas eles ignoraram. Os cavaleiros foram até o tal templo pensando em encontrar ouro ou joias e encontraram apenas a estatueta. Eles a levaram embora, mesmo sem valor. Menos de dois dias depois, o mais velho deles ficou muito doente e morreu. Os sintomas escritos no livro parecem o que hoje seria diagnosticado como pneumonia. Eles voltaram ao templo, mas lá encontraram um velho. Ele disse aos cavaleiros que não adiantava mais devolver a estatueta. Que a maldição estava com eles. Que o único jeito de evitar a morte seria praticando sacrifícios periódicos ao ente ou entidade representada na estatueta.”

“Que entidade seria essa e quem era esse velho?”

“Bom, o livro levanta a hipótese de que o velho era justamente uma manifestação daquela entidade representada pela estatueta. Não há um nome, mas seria uma entidade, um demônio do rio capaz de causar doenças pulmonares nas pessoas. Me parece bem idiota, afinal devia ser bem normal morrer de pneumonia no século XII.”

“Por isso o sacrifício consistia em oferecer a vítima ao rio. Mas como isso chega até os dias de hoje?”

“Bom, sem opções, os cavaleiros começaram a praticar os rituais de sacrifício. E pelo que o livro conta, além de não morrerem, eles acabaram enriquecendo. Então eles acabaram retomando este culto antigo, mas mantiveram apenas entre suas famílias nove famílias.”

“Incrível! Eu tenho que te agradecer. Em dois dias você trouxe muito mais coisas do que conseguimos em meses.”

“Na verdade, eu descobri tudo isso em duas horas. Eu demorei dois dias para te ligar por causa das outras coisas.”

“Como assim?”

“O livro trazia os nomes dessas novas famílias de origem francesa, mas uma delas, dois séculos depois, se estabeleceu em Portugal e se tornou influente. Essa família eram os Dubois. Em Portugal passaram a ser chamados Dubas. Essa família esteve envolvida no próprio processo de colonização do Brasil. Então, o culto deve ser ligado a essa família.”

“Mas essa família...”

“Sim, o patriarca faleceu há uns dois meses e o filho dele é senador da república.”

“Achei que você não via jornais.”

“Eu não vejo, mas o Heitor me falou.” “Quem é o Heitor?”

“O historiador.”

“Que historiador?”

“O que traçou o caminho da família Dubois, da França até Portugal e depois para cá.”

“Você contou da investigação para outra pessoa?”

“Bom, em primeiro lugar, você não me pediu o segredo. Em segundo, pode ficar tranquilo. Não contei. O Heitor trabalha para mim como historiador. Ele está acostumado a fazer todo tipo de pesquisa para mim. Recebe bem e não faz perguntas.”

“Por que você precisa de um historiador?”

“É, logo se vê que você não é de ouvir minhas músicas mesmo. Tudo bem. Assim como o Iron Maiden, muitas das letras que escrevo são baseadas em eventos históricos. Eu gosto de ler e pesquisar, mas não dou conta de tudo sozinho. O Heitor é da minha equipe.”

“Ah, ok, bom. Mas o que será que posso fazer com essa informação? Não dá para investigar uma pessoa poderosa assim.”

 “Você precisa pegá-la em flagrante.”

“Sim, mas como?”

“Bem, na hora de completar um ritual de sacrifício.”

“Mas eu teria que saber quando e onde isso vai acontecer.”

 “Não sei falar onde, mas posso te falar quando.”

“Como?”

“Como não. Quando.”

“Como você pode me falar isso?”

“Ah, sim. Os rituais devem seguir uma periodicidade.” Um determinado alinhamento astronômico. Que vai ocorrer de novo em duas semanas.”

“Mas isso não faz sentido.” Quer dizer, se é isso mesmo, essa família realiza sacrifícios periódicos há 500 anos. Mas eu nunca ouvi falar disso.”

“E só por isso você acha que não ocorre? Será que há 200, 300 anos atrás alguém ia se preocupar com escravos sendo sacrificados? Ou mesmo durante todo esse século? Pessoas pobres sumindo no interior ou moradores de ruas sumindo nas cidades?”

“E por que essas duas últimas vítimas apareceram? Por que pegaram uma garota rica?”

“Quem deve presidir esses situais é o patriarca. A menos que seja impossibilitado por motivos de saúde, por exemplo. O pai do senador faleceu há dois meses. Mas estava em estado grave há uns nove meses. Provavelmente o filho já estivesse sendo preparado. Mas ainda não tinha a mesma experiência do velho para esse tipo de coisa. Não pegue alguém que será procurado. Desapareça com o corpo. Perfeito.”

“Agora, se nós conseguíssemos saber onde a família estará nessa data. Eu vou ter que cobrar uns favores”, disse o policial. “E prometer mais um monte. Mas acho que sei como conseguir isso.”

“Então nós vamos atrás desse cara”, disse o baixista.

“Nós? Desculpe, eu sou grato pela sua ajuda. Mas eu não vou levá-lo.”

“Isso é um assunto policial.”

“Foda-se”, disse o baixista. “Se não fosse por mim, você estaria rodando em falso atrás do próprio rabo.”

“Meu chefe iria me demitir. Se bem que, na verdade, eu nem deveria estar investigando mais esse caso. Ele iria me suspender se eu falasse para ele.”

“Você consegue uma folga?”

“Folga?”

“É, umas duas semanas, uma que seja.”

“Sim”, disse o policial.Tem uns dias que posso tirar.”

“Então tire. Aí nós vamos por conta própria atrás desse cara. Se der certo, seu chefe vai ficar feliz. Se der errado, não precisa saber.”

“Isso é loucura.”

“Também era loucura vir atrás de um baixista para investigar um culto. Mas você veio.”

Era impossível o policial voltar atrás.

Ele conseguiu a folga. Não foi difícil. Era a primeira vez que ele pedia uma.

Tinha vários dias para tirar. Também conseguiu saber a agenda do senador. Uma jornalista que tinha um contato com alguém do gabinete do senador.

 Ele passou de credor a devedor de favores. Mas sabia onde o senador estaria. Mais que isso.

No caso anterior, o senador estava a cinquenta quilômetros do local do assassinato. Tudo se conectava. Era mais seguro estar em uma cidade próxima e ir para outro local em cima da hora do que estar hospedado na cidade.

Duas semanas depois, estavam na estrada a dupla Improvável, um policial e um baixista de heavy metal. Iam no carro do baixista. Ele também pagaria a hospedagem e a alimentação.

O final do mês não era uma época tranquila para um assalariado que paga pensão.

“Então, você também tem filhos?”

“Um filho, uma filha, três ex-esposas.”

“Uau! Eu tenho que pagar pensão para um filho e ex-esposa.”

 “Não é fácil.”

“Não, não é. Tenho que te agradecer. Eu não teria grana nem para bancar essa viagem.”

 “Tudo bem.”

“Posso perguntar uma coisa?”

“Claro.”

“Você ficou rico com a música? Tipo, vi a sua casa. É uma boa casa. Esse é um bom carro.”

“Digamos que eu consigo viver bem, mas minha banda sempre vendeu mais nos Estados Unidos e na Europa.”

 “E você acredita nessas coisas todas?”

“No quê?”

“Ah, no que você escreve. Rituais, magia, sei lá.”

“Depende. Se eu acredito que existem forças sobrenaturais que podem ser controladas por rituais, não. Definitivamente não. Mas se eu acredito no poder que essas crenças exercem sobre as pessoas, não tenho dúvidas. E não apenas esses rituais, mas qualquer religião. É só pensar naqueles malucos que explodem bombas em aviões e acham que vão ganhar um monte de virgens no paraíso. É uma besteira, claro. Mas eu não duvido que eles acreditem nisso de verdade.”

“É, é verdade. Você é ateu, então?”

“Não sei. Mas sei que existem boas pessoas que são ateus e boas pessoas que acreditam em Deus em qualquer religião. E existem pessoas que acreditam em Deus e fazem coisas ruins. Não apenas em lugares distantes como o Oriente Médio ou em cultos obscuros como esse que você estava investigando.”

“Como assim?”

“Uma vez nós fomos participar de um festival de heavy metal nos Estados Unidos. Na frente do local do show havia um grupo de cristãos fundamentalistas. Eles tinham todo tipo de cartazes dizendo que aquela música era do demônio, que iríamos para o inferno e tal. Em um certo momento eles viram um grupo de garotos. Tinham uns 14 anos, eram 3 ou 4. Eles os cercaram e começaram a agredi-los. Por sorte outro grupo maior estava chegando e interveio. No final a polícia chegou e levou todos. Mas o mais louco, o pessoal que defendeu os garotos foi acusado de agredir os religiosos. Depois soube que aquele grupo havia atacado uma garota lésbica na mesma cidade uns meses antes. Bateram tanto nela que quebraram seu maxilar, seus braços, costelas. E ela teve um traumatismo craniano. Enfim, é outro exemplo do que falei. Não interessa tanto no que acredito. O que interessa é que algumas pessoas que acreditam vão fazer qualquer coisa.”

“Isso foi pesado. Difícil imaginar uma coisa dessas. O que é isso que está tocando? Pelo que entendo de inglês é justamente alguém que está em algum tipo de ritual. Vendo uma figura sinistra?”

“Sim, exatamente. É Black Sabbath.”

“E esse é o nome da banda?”

“Sim, mas nesse caso é o nome da música também. E do álbum. É a primeira música do primeiro álbum do Black Sabbath. Nunca ouviu falar mesmo?”

“Acho que sim. Meu primo gostava. Minha mãe era muito católica, nunca me deixou ouvir.”

 “Do que você gosta?’

“Modo de viola.”

“Bom, eu também.”

“Sério?”

“Sim, e de música clássica. Existe música boa em vários estilos.”

“E essa Black Sabbath é importante no rock?”

“Sim, é uma das minhas favoritas. De certa forma foi inspiração para minha banda. Em especial o baixista, o Geezer Butler. Ele era um entendido do assunto. E foram uns dos primeiros que falaram desses temas em músicas, rituais, demônios, essas coisas. De certa forma existem outras bandas mais ou menos contemporâneas. Mas eles foram os que definiram o estilo.”

“E a tal Led Zeppelin?’

“Essa é ótima. O nome da minha banda foi inspirado neles. Zepelin de chumbo, nós éramos o Cachalote de Aço. Ah, claro. Cachalote por causa da música deles chamada Moby Dicky. Já ouviu?”

“Não sei.”

“No mínimo Stairway to Heaven você já deve ter ouvido. Pega aquele case de CDs ali atrás.” “Esse azul?”

“Sim.”

“Acho que nunca tinha visto um CD.”

“Ah, é o futuro. Logo todo mundo vai ter. Eu ainda prefiro os LPs. Mas os CDs vão se tornar mais populares que o K7. Até ano passado eu tinha K7 no carro. Preste atenção.”

“Ah, essa eu já ouvi. É diferente da outra banda.’

“Esse começo é bem tranquilo, não? Mas não se engane. Eles têm outras pesadas. Essa banda mais especificamente o guitarrista, o Jimmy Page, também falava muito sobre ocultismo em suas letras. Mas o Black Sabbath deixou tudo mais pesado. Como um filme de terror.”

“E esses caras acreditam? Ou acreditavam mesmo em tudo?”

“O Page eu não sei. Talvez. Ele era meio ligado nessas coisas.” Como o Raul Seixas. Os caras do Black Sabbath não. O Geezer teve essa ideia como uma forma produto. Como um filme de terror. Mas depois, principalmente na Europa, apareceram umas bandas que parecem levar a sério.”

“Vocês não, né?”

“Ah, mesma coisa que o Black Sabbath. Um filme de terror. Bom, parece que chegamos.”

“Sim, vamos para a pousada.”

Se instalaram em uma das poucas pousadas da cidade. O baixista pediu quartos separados. O policial não entendeu por que gastaram o dobro, se cada quarto tinha duas camas. No meio da noite, o policial acordou. Resolveu dar uma volta.

Percebeu a luz do quarto do baixista. Estava acesa. Estaria lendo? Resolveu ir até lá.

Quando foi bater, a porta se abriu. Uma jovem de uns 25 anos estava saindo. Se assustou.

Depois riu, se despediu e saiu. O baixista estava logo atrás, apenas de cueca. Entre. Sabe, eu ia pedir para ela trazer uma amiga. Mas imaginei, pelas conversas que já tivemos. Que você não se sentiria muito... A vontade com prostitutas.”

“Achou certo.”

“Entre. Quer alguma coisa?”

“Não, apenas acordei. Nossa, não tenho nada a ver com isso. Principalmente porque você está pagando tudo, mas... Você não falou nada para ela, certo?”

“Para ela quem?”

“A garota que saiu daqui.

“Sobre o que?”

“Sobre o que viemos fazer aqui.”

“Rapaz, eu até entendo seu receio. Mas fique tranquilo.

 Eu já tive boquetes muito melhores do que esse. Não iria dar com a língua nos dentes por causa disso.”

“Certo, me desculpe.”

“Tudo bem. Então, recebeu alguma notícia nova do seu informante?”

“Sim. Eu fui até o telefone público na esquina. Consegui falar com ele. O senador está mesmo em uma cidade vizinha. Mas... Difícil será saber em que local exato vai ocorrer o ritual. Tem certeza da data, certo?”

“Melhor ainda. Tem certeza da data, local e horário.”

“Como assim?”

“Eu falei com o Heitor. Ele fez uma pesquisa aprofundada e me mandou por fax. Os rituais devem ser feitos não apenas em uma data específica, mas seguem um padrão. Tem todo um lance de misticismo, números e astrologia. Mas o importante é que nessa data e nessa região, o ritual deve ser realizado nessas coordenadas geográficas e nesse horário. Olha o fax.”

"O Heitor não desconfia de nada?”

“Eu já te falei. Ele recebe bem. Não faz perguntas. Mas com certeza ele deve pensar que se trata de algum projeto para um novo álbum. Bom, deixa eu comparar com um mapa da região. Sim, realmente, bem próximo do rio.”

“Sim, bate direitinho com o que sabemos. Se a vítima precisa ser afogada próximo de uma queda d'água e depois jogada no rio, esse é o melhor lugar. Pois passa dentro de uma área remota.”

“Sabemos a hora e o local. Agora a questão é o que fazer?”

“Como que fazer? Vamos lá impedir.”

“Ouça, esse negócio já foi longe demais. Você não é policial. É totalmente inconsequente da minha parte te levar a um local onde provavelmente vai acontecer um crime.”

“Cara. Para de viajar. Exatamente porque já chegamos longe demais, como vamos deixar isso passar?”

“Mas então, terei que chamar reforços.”

“Chame. Vão acreditar em você?”

“Não.”

“Então, vamos nós, caralho.”

“Mas apenas nós dois? Não sabemos quantos eles serão.”

“Eu sei.”

“Você sabe?”

“Esqueci de te falar. No livro eu li mais sobre a seita. Aqui. Eu trouxe. Veja.”

“Nove?”

“Contando o sacerdote chefe. Como eram nove cavaleiros na história que te contei, virou tradição que, em cada ritual, sejam apenas nove membros. E mais. Olha. Algum tempo depois, em um dos rituais, houve um desentendimento entre dois cavaleiros. Os outros acabaram tomando partido de um e outro e ao menos três deles acabaram mortos”.

“Daí, depois disso, nos rituais, a única arma permitida era a adaga cerimonial. Isso quer dizer que eles estarão desarmados.”

“Exatamente. Nove sujeitos com apenas uma faca. Se você tiver uma arma de fogo, e eu sei que você tem, podemos pegar todos. Você tem algemas?”

“Não tenho nove pares.”

“Eu tenho.”

“Por que você tem algemas?”

“Isso não interessa. Hahaha.”

“Tá bom então. Talvez seja melhor não saber mesmo”

“Vamos ao que interessa. Veja bem. Se já sabemos a hora que o negócio deve começar e as coordenadas, olha aqui... Podemos esperar umas horas antes nesse local. Com essas árvores tenho certeza de que não seremos vistos. Quando eles passarem, iremos atrás deles. Você os rende com a arma e eu algemo todos eles. Aí você pode chamar seus colegas.”

 

Na tarde seguinte, o policial e o baixista estavam de tocaia no local escolhido. Ao contrário de outros dias, o silêncio imperava, a não ser por uma única pergunta e sua consequente resposta.

“Eu não sei se tenho direito de te perguntar isso. Mas vou perguntar assim mesmo. Por que você está fazendo isso? Por que se arriscar numa loucura dessas?”

“Não sei bem o que responder. Tem tantas coisas que eu poderia te falar. Porque é a coisa certa a se fazer. Porque fui com sua cara. Porque posso usar essa experiência para escrever uma música, um álbum inteiro. Ou talvez, simplesmente, porque eu estava morrendo de tédio e poder resolver uma série de assassinatos de uma seita secular não é uma oportunidade que aparece todo dia. Ei, veja. Olhe no binóculo. Eles chegaram.”

A dupla improvável ficou em silêncio profundo. A comitiva chegou, como esperado. Nove homens com túnicas e uma pessoa com pulsos amarrados para trás e capuz na cabeça. Provavelmente, o garoto que havia sido dado como desaparecido alguns dias atrás. Passaram pelos dois.

Eles começaram a descer o morro. Foram para onde os membros do culto se dirigiam. Quando chegaram, viram que os cultistas já iniciavam o ritual. O pequeno símbolo que seria marcado na pele da vítima já estava sendo esquentado em fogo.

Depois seria feito o corte na palma da mão esquerda e finalmente a vítima seria afogada para aquele ente das águas.

“Parados todos! Parados! Todos com as mãos para cima.” Gritou o policial com arma em mãos. O baixista estava atrás. Ele estava certo. O grupo não portava armas exceto a adaga cerimonial que era usada para fazer o corte na mão da vítima.

“Soltem esse garoto e joguem essa adaga para cá.”

A ordem foi atendida.

“Agora um por um. Venham até meu parceiro. Ele tem nove algemas. Vai colocar em cada um de vocês.”

“Nove algemas são nove membros”, pensou o baixista.

Mas ali estavam oito. Faltava um. Uma coisa trivial. Um deles tinha ficado um pouco para trás para urinar. A dupla improvável de investigadores não percebeu a tempo. O cultista que havia ficado para trás saltou de surpresa sobre o policial. Os dois rolaram morra baixo.

“Peguem o outro”, gritou o líder. Dois homens se lançaram sobre o baixista.

 O primeiro foi recebido com um direto de direita e um gancho de esquerda. O segundo tentou acertá-lo com um cruzado de direita. O baixista escapou para o lado. Direita e esquerda. Dois homens estavam nocauteados.

O baixista nem sempre tiver a vida de conforto de hoje. Mais jovem de uma família de três irmãos. Pai alcoólatra e ausente. Mais de uma vez teve que brigar com os irmãos mais velhos por um pedaço de pão. Mais de uma vez apanhara do pai. Criou uma casca. Ainda criança teve que aprender a se defender dos garotos mais velhos do bairro. Bater e apanhar era parte do seu cotidiano. Adolescente fazia parte de uma gangue de delinquentes. Apanhavam da polícia e de comerciantes quando eram pegos cometendo pequenos furtos.

Um projeto social no bairro o tirara dessa vida. Uma escola de boxe. Com o tempo se tornara um jovem e promissor lutador. Por pouco não se tornou profissional. Mas uma outra paixão surgiu em sua alma quando ouviu Led Zeppelin e Black Sabbath pela primeira vez. Trocou as luvas pelo baixo.

No início da carreira não foram poucas as vezes que precisou fazer uso de suas habilidades como lutador. Tocando em todo tipo de bares e casas noturnas mais de uma vez foram atacados por neonazistas e outros tipos violentos. Mesmo hoje ainda treinava duas vezes por semana.

Na verdade, os dois homens que o atacaram eram mais jovens, mas não tiveram chance. Haviam crescido cercados de luxos e conforto. Tinham sido valentões na escola, mas sempre agiam de forma covarde contra mais fracos e mais jovens. Esperavam encontrar a mesma facilidade contra aquele homem de uns 50 anos. Se deram muito mal. Porém passado o susto inicial o líder do culto gritou “peguem ele, cerquem ele, vocês ainda são cinco, ele é apenas um.”

Eles formaram um semicírculo. O baixista montou sua guarda. Sabia que agora seria mais difícil. Os agressores não seriam mais pegos de surpresa. Foi quando o policial retornou à cena. Na queda sua arma caíra no rio. Mas o adversário bateu a cabeça e desmaiou. Ele subiu a ribanceira, pegou uma pedra a esmo e a usou para bater na parte de trás da cabeça de um dos agressores. O baixista se lançou imediatamente sobre o mais próximo. Direita e esquerda, outro nocaute. O policial atacou um segundo, ainda usando a pedra. Um dos outros dois se lançou ao chão para apanhar o punhal que estava no chão e o outro conseguiu segurar o baixista pelas costas. O que pegou o punhal tentou um corte, mas o baixista conseguiu soltar o braço esquerdo se defendendo. A grossa jaqueta de couro impediu um ferimento mais grave. Quando o agressor faria um segundo ataque, o policial também o acertou com a pedra. Mais um foi ao chão. O baixista se soltou de vez. Esquerda e direita, e o oitavo homem ia ao chão. Restava apenas um. Incrédulo, o líder entrara no rio e segurava o ferro em brasas, com que deveria ter marcado a pele da vítima.

“Entregue-se senador, nós sabemos de tudo.”

O senador não respondeu. Gravou na própria carne o ferro com a marca da entidade profana. Com uma mordida fez sangrar a mão e a mergulhou no rio. Depois, se jogou de costas e se deixou levar pela correnteza. O baixista e o policial não conseguiram intervir. Mais a frente, viram o senador se precipitar em uma queda d’água.

O baixista perguntou:

“Como você está? Está ferido?”

“Um pouco machucado, quando rolei morro abaixo. Mas nada demais. E você? Como está?”

“Um corte no braço. Acho que vou precisar de um antisséptico. Mas nada profundo. Só minha jaqueta que já era. Merda. Eu ganhei do Lemmy, acredita?”

“De quem?”

“Deixa para lá. Vamos prender esses caras antes que acordem.”

Algemaram os oito ao redor de uma árvore. O policial chamou reforços. Todos foram levados para a delegacia. O corpo do senador foi localizado no dia seguinte. O caso teve uma enorme repercussão, depois foi esquecido. O policial agiu fora da lei e deveria ser punido. Por outro lado, seria difícil punir alguém que descobriu, solucionou e acabou com uma série de assassinatos que ocorriam há séculos no país. Nem as autoridades perderiam a oportunidade de promoverem às custas dele. Assim, ele não foi expulso. Foi transferido para um cargo burocrático, com maior salário e nunca mais pisou na rua para uma investigação. O baixista se reuniu com sua antiga banda e lançaram um álbum todo inspirado na obscura seita. Os dois mantiveram contato e uma amizade improvável. Mas nunca mais colaboraram em uma investigação. Ao menos  que se saiba.

 

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