Segredos da invasão.
Tudo começou na década de 1980. No mundo todo, líderes de países foram paras as TVs e rádios falar com as pessoas. Eles já estavam cientes do fenômeno há algum tempo, mas agora era impossível esconder. Em menos de uma hora, naves vindas do espaço entrariam na atmosfera terrestre. Centenas delas. O pânico era esperado. Entre os líderes da Terra, a expectativa. Seriam pacíficos?
A resposta foi negativa. Pelo mundo todo, máquinas de guerra e robôs alienígenas atacaram os seres humanos. As forças armadas contra-atacaram, apenas para serem massacradas. Na Alemanha, estadunidenses e soviéticos lutaram lado a lado. E dessa vez os alemães estavam com eles, orientais e ocidentais. As mais modernas armas da potências pouco fizeram contra as máquinas alienígenas.
Primeiro as grandes cidades caíram. Nova Iorque, Moscou, Beijing, Tóquio, São Paulo. Depois as menores. Os seres humanos eram caçados e exterminados. Com o tempo, os sobreviventes passaram a observar algumas coisas. Não encontramos entidades biológicas. Mesmo nos veículos e máquinas que conseguíamos neutralizar, não existiam seres alienígenas em seu comando. Estas máquinas não haviam feito uso de nenhuma bomba ou arma de destruição de massa. Parecia que o objetivo era exterminar os humanos sem trazer nenhum outro impacto ao planeta. Apenas nós usamos nossos arsenais nucleares. Uma vez. Um míssil balístico soviético foi disparado contra a própria cidade de Moscou. A cidade foi destruída, mas algumas poucas máquinas alienígenas foram afetadas. Depois disso, um sinal emitido pelos invasores desativou todas as outras armas nucleares do mundo.
Sobraram poucos humanos, mas a luta continuou. Fiz parte da equipe que estudou algumas máquinas que foram abatidas, com o objetivo de entende-las e, quem sabe, reprogramá-las para nosso uso. E o que descobri foi mais chocante do que tudo que havia visto até ali.
Havia um consenso de que a tecnologia era menos alienígena do que esperávamos. Sim, ela era muito mais avançada, mas se fosse possível "rebobinar" esses equipamentos, eles pareciam chegar nas nossas próprias máquinas. Talvez isso não fosse tão estranho, afinal as leis da natureza são as mesmas em todo o universo. Então, "talvez a Ciência de outras civilizações tenha seguido um caminho mais ou menos semelhante", foi dito. Também não era exatamente estranho que as viagens espaciais fossem realizadas por máquinas. As enormes distâncias entre planetas e estrelas tornam estas viagens muito hostis para entidades biológicas. Isso sem contar a radiação, a falta de gravidade e outros tantos fatores. Se tomarmos nosso tempo médio de vida como parâmetro, teríamos que construir naves que funcionassem como um verdadeiro planeta, capaz de reciclar recursos necessários para nossa sobrevivência por dezenas ou centenas de gerações, que nasceriam e morreriam nessa nave até atingirmos a estrela mais próxima. Mas robôs, uma tecnologia de Inteligência Artificial, seriam capazes de realizar longas viagens e se manterem funcionais por milhares de anos, desde que tivessem uma fonte de energia. É isso que parecia ter ocorrido com as máquinas que nos invadiram. Mas o mistério maior. Quem os construiu? Por que, depois de viajar bilhões de quilômetros, exterminar uma civilização inteira? Por que a preocupação em não afetar outras formas de vida, não utilizar armas de destruição em massa?
São essas respostas que descobri. Consegui acessar a programação de um dos robôs. Os registros são muito claros. Uma civilização muito avançada mas próxima do colapso ambiental. Um plano ambicioso para salvar sua espécie e civilização. Como se fosse uma "arca de Noé" espacial, milhões de embriões congelados foram enviados ao espaço em busca de um novo lar planetário. Seus tutores, máquinas capazes de suportar os rigores da viagem espacial e que deviam garantir a qualquer custo a sobrevivência dos embriões. Vagariam pelo espaço por quanto tempo fosse necessário. As incríveis máquinas eram capazes de, ao passarem por planetas ou luas que não fossem adequadas para seus criadores, buscarem recursos necessários para seu funcionamento, como metais e fontes de energia. Quantos anos passaram nessa jornada? Quantos mundos visitaram? Quantos mistérios ignoraram, focados apenas em um único objetivo? Encontrar um novo lar para seus criadores.
Quando encontraram o planeta com condições adequadas, começaram a penúltima etapa da missão. Eliminar do planeta qualquer eventual ameaça aos seus criadores. A análise da Terra levou os robôs a concluírem que nossa espécie era a única ameaça a seus senhores e que deveria ser eliminada. A preocupação em exterminar apenas os seres humanos estava explicada. Após a completa eliminação, ou ao menos anulação, dos riscos, o último estágio da missão seria cumprido. Os embriões seriam colocados em um tipo de útero artificial, e quando estivessem desenvolvidos, as máquinas produziriam alimento para seus senhores a partir dos próprios recursos planetários. E isso já estava ocorrendo. Em vários lugares do mundo, naves que ainda não haviam sido vistas pousaram. Eram os berçários onde os úteros artificiais gerariam os novos mestres da Terra. Mas precisamente isso mudou os rumos da guerra. Lutar contra as máquinas era inútil. Mas se fosse possível se infiltrar e destruir os berçários e úteros artificiais, as máquinas teriam falhado em sua missão. Talvez fossem embora ou, mais provavelmente, simplesmente parariam de funcionar.
Assim ocorreu. Quando comuniquei a descoberta às lideranças locais, a informação foi espalhada para outros núcleos de resistência. Os robôs eram muito resistentes às nossas armas, mas não conseguiram evitar infiltrações. Em algumas semanas vimos mudar os resultados de uma guerra que se arrastou por anos. Da quase completa eliminação à vitória humana. Destruímos todos os berçários. Quando o último deles foi destruído na Índia todas as máquinas pararam. Se estas máquinas fossem capazes de sentir alguma emoção, com certeza seria frustração. Depois de bilhões de quilômetros e incontáveis anos viajando pelo espaço com uma única missão, chegaram tão perto de um sucesso absoluto e então fracassaram.
Não digo que a reconstrução será difícil, pois não há muito o que reconstruir. Cidades inteiras estão de pé, mas vazias. Os números da humanidade sim, demorarão muitos anos para serem repostos. Mas serão. Eu sei que serão. Bilhões de seres humanos no planeta novamente. E vamos retomar nossa marcha insana para o crescimento econômico, a qualquer preço. Como tenho tanta certeza? Omiti uma única informação até agora sobre minhas descobertas. Mas tudo está registrado na memória das máquinas, que chamamos de alienígenas. Em idiomas bem humanos. Sei que vamos levar o planeta para bem perto do colapso ambiental. E quando a vida no planeta estiver se tornando quase inviável, tentaremos escapar, deixando nossa destruição para trás. Mas nossa tecnologia, apesar de avançada, não será suficiente para garantir uma viagem segura para nós. Vamos poder sim, enviar nossas máquinas e robôs e, em compartimentos muito protegidos da radiação cósmica, enviaremos bilhões de embriões de nossa própria espécie. Ao atravessar os limites do sistema solar, nossas máquinas irão se deparar com um fenômeno cósmico desconhecido e serão arremessadas não no espaço, mas no tempo. Milhares de anos antes de sua construção. Irão encontrar um sistema estelar com potencial de abrigar seus criadores. Passarão, em direção ao interior do sistema, por um pequeno planeta gelado e por gigantes gasosos. Vão analisar com cuidado um planeta rochoso avermelhado. Este quase serviu. Então, chegarão ao terceiro planeta desse sistema. Uma pequena joia cósmica. Semelhante ao moribundo mundo de seus mestres. Perfeito. Basta exterminar uma única espécie, que não aceitaria dividir seu mundo com outra espécie e que parece dedicada a destruir o próprio lar cósmico.
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