Dores de cabeça.
Dores de cabeça.
Não tenho expectativa nenhuma que esse relato reverta os eventos que tenho certeza de que irão ocorrer em breve. Se o faço, é mais como um desabafo, algo que não posso guardar apenas para mim. Desde criança sofri com dores de cabeça. Nessa época elas eram pouco frequentes e não muito intensas. Nenhum médico nunca encontrou nada preocupante, então simplesmente convivia com elas. Mas à medida em que envelhecia, elas se tornavam mais fortes, frequentes e duradouras. Na idade adulta, elas afetavam de forma significativa minha qualidade de vida. Os mais fortes analgésicos representavam um alívio fugaz. Porém, como aconteceu na infância, médico algum encontrou as causas, tinha certeza apenas de que não era algo fatal, o que para mim não era de grande consolo visto o sofrimento que me causava.
Há alguns meses tive uma crise no trabalho que me manteve afastado por dois dias. Quando retornei, um colega bastante discreto me entregou um cartão dizendo que talvez pudesse me ajudar com minhas dores de cabeça. Agradeci, guardei o cartão e voltei ao trabalho. Depois pesquisei sobre o nome do cartão. Tratava-se de uma espécie de culto ou religião que utilizava bebidas feitas à base de plantas para curarem diversos males e doenças. Não seria a primeira vez que tentaria tratamentos alternativos. Como os anteriores não deram resultado, nem cogitei em responder. Discreto como é, o colega nunca mais me abordou, o que agradecia o íntimo, pois não precisaria utilizar uma desculpa fajuta para não ir. Porém, pouco tempo depois, uma outra crise me atacou de forma incomum.
Quando retornei ao trabalho, resolvi que não faria mal tentar. Falei com o mesmo colega, que foi muito solícito. Marcamos de nos falarmos fora do trabalho e ele me explicou os procedimentos. Havia custos claros, mas não era mais do que eu costumava gastar em uma consulta regular em um médico.
O tratamento consistia em uma única sessão. Ocorreu numa sexta-feira, ou melhor, teve início numa noite de sexta-feira e acabou no sábado pela manhã. Não vou me alongar em detalhes maçantes sobre a preparação, mas envolvia a injeção de certos chás que preparavam o organismo para a bebida curativa de fato. Meditação e utilização de uma espécie de túnica vermelha e amarela colocada por cima das roupas de baixo. Eu esperava uma bebida de gosto muito amargo e até repugnante.
Foi uma surpresa agradável, quando a ingeri por volta das 21 horas, que estava enganado. Não era saborosa, mas não era terrível para o paladar. Porém, não posso dizer o mesmo da sensação que me acometeu cerca de 30 minutos depois.
Começou com uma sutil pontada no estômago, logo evoluiu para uma terrível dor abdominal. Era como uma fogueira me queimando por dentro. Se eu conseguisse pensar naquele momento, seria arrependimento, pois para me livrar da dor de cabeça estava sofrendo com outra muito pior. Vomitei, então desmaiei, caí em um sono profundo recheado de sonhos estranhos.
E é sobre um desses que preciso contar.
Abri os olhos e acordei em um tipo de cabana. Ao meu lado, minha esposa. Era um dia importante. Ela também acordou e transamos. Tomamos um desjejum e me arrumei. Coloquei minhas roupas e afivelei meu cinto com uma lâmina longa presa de um lado e uma faca do outro. Também peguei uma machadinha de guerra e saí da cabana. Juntei a mais algumas dezenas de homens vestidos e armados como eu. Guerreiros prontos para uma batalha.
Nosso líder era uma figura impressionante. Alto esguio discursava sobre defendermos nossas terras de um grupo rival. Marchamos alguns quilômetros até os encontrarmos. Passávamos por enormes ruínas tomadas pela vegetação. Sempre fui intrigado sobre o povo que ergueu aqueles enormes torres. Nem nossos mais sábios anciãos tinham certeza. Mas histórias muito antigas falavam de pessoas quase tão poderosas quanto os deuses capazes de cruzar os céus em máquinas voadoras e construir torres altas como montanhas. Porém um dia uma praga se espalhou entre eles. Quase todos morreram.
Nós éramos descendentes desses povos. Era uma história interessante, mas no nosso cotidiano não tínhamos muito tempo para pensar nisso. Passávamos a maior parte do dia preocupados em conseguir alimento. Havia épocas em que a caça era escassa e tínhamos que andar muito em busca de animais. Agora algumas pessoas de nossa aldeia começavam a tentar criar alguns animais menos agressivos a fim de conseguirmos carne mesmo em épocas sem caça. Outros tentavam fazer o mesmo com plantas e árvores frutíferas. Eu era um caçador e também um guerreiro. Íamos para a guerra, proteger nossa nascente e nossos campos de caça. Nós os avistamos quase ao mesmo tempo em que eles nos viram.
Os dois grupos estavam em uma área plana, sem árvores ou obstáculos. Seria uma luta aberta, sem estratégias militares elaboradas. Todos os combatentes estavam a pé. Eles levavam mulheres e crianças para a retaguarda. Apenas os guerreiros ficaram. Estavam num número pouco inferior, mas de forma geral eram mais altos e corpulentos.
A língua deles era semelhante a nossa, pois responderam ao nosso líder quando este ordenou que eles deixassem nossas terras. A resposta, como esperado, foi negativa. As ameaças e bravatas aumentaram e culminaram no choque entre os dois grupos. Eu brandia minha lâmina longa e estocava com minha faca. A planície verde se tingiu de vermelho. O cheiro da manhã deu lugar ao odor adocicado de sangue e o suave canto dos pássaros foi sufocado por gritos de fúria e dor. O sol testemunhou atos de bravura e crueldade.
De todos os guerreiros, dois se destacavam. O mais alto e corpulento de todos era o líder de nossos inimigos. Ele brandia um machado pesado e esmagava crânios e peito de meus companheiros. Confesso que evitava me aproximar daquele matador de homens. Do nosso lado, o líder de minha aldeia era pouco mais baixo e bem mais esguio.
A cada movimento de suas lâminas, um inimigo ia ao chão com um corte ou alguma perfuração fatal. No penúltimo momento da batalha, esses dois titãs estavam frente a frente. O colosso inimigo avançou como um touro selvagem, segurando o machado com as duas mãos de cima para baixo. O golpe seria capaz de partir um homem do crânio ao tórax, mas nosso líder era muito veloz. Saltou para o lado e o poderoso golpe cortou apenas o ar. Um segundo golpe veio na horizontal, mas uma nova finta de nosso líder o livrou da morte mais uma vez. O gigante se desequilibrou e nosso líder se aproveitou. Golpeou veloz como um gato. Um único golpe perfurou o pescoço do gigante e o sangue esguichou.
O matador de homens caiu. Os seus companheiros que perceberam entraram em pânico. Tentaram escapar, mas foram massacrados.
Porém, mesmo uma cobra ferida pode ser perigosa. Eu já havia derrubado muitos inimigos quando senti uma dor lancinante nas costas. Um inimigo em fuga desesperada cravou uma faca que chegou aos meus pulmões. Mais especificamente no meu pulmão esquerdo. Virei imediatamente e com o giro da minha lâmina cortei seu pescoço. Ele morreria antes. Ainda tonto, senti uma segunda facada no abdômen. Esse agressor morreu também em seguida com o crânio esmagado por um martelo de pedra. Então desmaiei.
Acordei de noite na aldeia. Meus ferimentos estavam limpos. Estava ao lado de vários outros feridos. Havíamos vencido, mas o preço tinha sido alto em mortos e feridos. Minha esposa estava lá e eu tinha muita febre. Ela chorava, pois sabia o que ia acontecer.
Nosso líder também estava lá. Ele apertou a mão de cada ferido e agradeceu. Pouco tempo depois, eu fechei os olhos para sempre, ao menos naquela vida.
Acordei numa rede confortável. Ainda vestia a túnica vermelha e amarela. Algo estava diferente. Estava bem disposto como nunca. Nenhuma dor abdominal ou de cabeça. Apenas uma fome e sede intensas. Duas pessoas vieram me auxiliar e me levaram ao refeitório, onde me juntei a outras pessoas vestidas como eu. Foi servido um belo café da manhã que comi com satisfação. Como recomendado, descansei por lá mais algumas horas e voltei para casa.
Isso foi há três meses e nunca mais tive problemas com dores de cabeça. Mas o sonho se tornou perturbador. Devo dizer que, enquanto guerreiro de uma tribo selvagem, eu não tinha nenhuma lembrança de minha vida aqui. Mas agora, aqui, tenho lembranças vívidas da vida daquele guerreiro. Não apenas do dia da sua morte em decorrência de ferimentos de batalha, mas de toda a sua vida, da sua infância, pais e irmãos, do seu treinamento como caçador e guerreiro, de várias batalhas anteriores e expedições perigosas. Claro, todas essas lembranças podem ser apenas delírios gerados pela ingestão de uma bebida feita a partir de uma planta com efeitos ainda não totalmente conhecidos. Pode ser um efeito colateral gerado pela reação química que promoveu minha cura. Mas me lembro de uma vez, quando o caçador, ou eu, tinha apenas 12 anos. Persegui um cervo até o local das ruínas. Ele acabou escapando, mas entrei em uma das grandes torres, apesar do medo. No chão vi algo estranho, um objeto coberto de estranhos símbolos que ele, ou eu, não entendia, mas que ao mesmo tempo eram estranhamente familiares, como uma lembrança de muitos anos. Desde aquele dia, durante todos os dias, até o penúltimo daquela vida, passei os olhos por todos aqueles símbolos. Memorizei cada um deles, mas morri sem entendê-los. Mas agora, nessa vida, eu me lembro. E é muito simples.
Uma notícia de jornal. Um conflito estourou na Ásia. Índia e Paquistão estão em guerra. Um dos lados utilizou uma arma biológica, mas as coisas saíram do controle. Pessoas de ambos os lados morrem e a infecção se espalha. Agora entendo.
O guerreiro nasceu e cresceu em um mundo muito no futuro, depois que a humanidade quase se extinguiu por completo depois de uma guerra biológica. Os grupos que sobreviveram regrediram ao estágio de selvageria para depois recomeçar lentamente a caminhada de volta à civilização. Vivi, ao menos em parte, a vida de um homem que nasceu num momento em que seu grupo estava começando a redescobrir a pecuária e a agricultura. Percebo agora que as lâminas que usamos não haviam sido fabricadas por aquelas pessoas, mas eram de nossa época, provavelmente recolhidas de simples lojas de ferragens. As ruínas que me fascinarão, o meu álter ego do futuro, são os prédios da cidade. A batalha campal que ocorreu, ou o que ocorrerá, nas futuras ruínas de um parque da cidade.
Tudo delírio, pode-se pensar. Muito mais viável pensar no delírio causado pela bebida do que acreditar que, de alguma forma estranha, minha mente viajou muitos anos para o futuro e se alojou no cérebro de um guerreiro e, quando retornou, trouxe também suas lembranças. Eu pensei nisso também até uma semana atrás, quando li em um jornal que o conflito entre Índia e Paquistão se tornou uma guerra aberta. Eu já entendi que logo um deles utilizará uma arma biológica que sairá do controle e será o fim da civilização como a conhecemos.
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