A estátua do lobo e do homem.

 Nessa pequena cidade, em uma praça afastada, há uma velha estátua. Sua história já foi quase totalmente esquecida. Quem a vê, pensa que é um homem qualquer com um cão ao lado. Um pastor, talvez alguns pensem. Mas ele não tem um cajado em mãos, mas uma espada no cinto. E não é um cão pastor ao seu lado, mas um lobo.

Quando a estátua foi construída essa pequena cidade era um importante porto comercial e essa praça era sua área central. O homem foi o maior e mais poderoso líder militar de sua época. A estátua foi construída por um dos filhos desse líder militar, quando se tornou o regente dessa região no lugar de seu pai.

A história e o mito se misturam sobre as razões da construção da estátua. Essa é uma das versões. Naquela época, país era governado por um rei fraco. Quem governava de fato eram os líderes guerreiros, senhores de cada província. Sim, prestavam um juramento de fidelidade ao rei, mas na prática tinham total autonomia em em seus territórios. O senhor anterior ao homem da estátua era fraco e idoso, morreu sem herdeiros. 

Então, um jovem oficial foi aclamado como novo líder. O homem da estátua. Conta-se que era o mais habilidoso espadachim do reino, um grande estrategista e cercou-se de estudiosos, engenheiros e intelectuais que acabaram por ajudá-lo a tornar sua província a mais poderosa do reino. Dez anos depois de se tornar o senhor da província, quando o reino foi invadido por homens vindos do leste, ele liderou exércitos unificados e conteve a invasão. Naqueles momento, poderia até ter tomado o reino, mas isso nunca foi do seu interesse. O fraco rei de então, percebendo isso, se tornou muito grato e sabia que tinha no homem da estátua seu principal pilar e aliado.

 O senhor dessa província, o homem da estátua, casou-se duas vezes, e isso é importante para entendermos essa história. Sua primeira esposa deu à luz três filhos, que se tornaram fortes guerreiros, e o mais velho seu herdeiro. A esposa morreu no quarto parto, bem como a menina que nasceu e viveu poucos minutos. O senhor da província ficou arrasado, bem como seus filhos. Mas um ano depois se encontrou com uma jovem nobre que visitava seu castelo. Como naquela época casamentos por aliança eram comuns, o nobre pai da moça a entregou em matrimônio ao poderoso senhor. De início, a moça foi relutante, mas com o tempo passou a amar aquele home tão duro e frio por um lado, mas que conseguia ser atencioso e falar sobre os grande reis e rainhas, impérios e batalhas da antiguidade.

Um ano depois do casamento, ela deu à luz uma menina, que logo se tornou a razão de viver do pai e dos irmãos.

Tudo estava tranquilo na vida da província, pois a população vivia bem, tão bem quanto se podia viver naqueles tempos pelo menos, as fronteiras e estradas eram seguras e ele era o braço direito do rei. Mas sempre há inveja e traição. Acontece que havia outros senhores de províncias que invejavam seu poder e influência no reino. Sabiam que desafiá-lo era inútil, então maquinavam conspirações. Havia também um funcionário do castelo. Ele era ambicioso mas fraco. Era sobrinho em segundo grau do antigo senhor, aquele que morreu sem herdeiros. Ele esperava herdar a província, mas assistiu impotente o então oficial ser aclamado senhor. Poderia ter feito uso da instituição do duelo individual, mas que chance teria ele, um burocrata preguiçoso, contra um hábil guerreiro? Preferiu jurar lealdade ao senhor, esconder seu parentesco distante com o falecido e continuou em sua função, não muito importante, na fortaleza da província.

Um dia, o funcionário soube das conspirações dos outros senhores. Ou, esses outros senhores souberam do funcionário. E puderam arquitetar juntos. Aconteceu que a irmã mais nova da esposa do senhor da província iria se casar. O casal e a filha mais jovem iriam para as bodas, em uma viagem que duraria três dias. O funcionário conseguiu ter acesso aos planos da viagem e os entregou aos conspiradores. Não seriam capazes de enfrentá-los em uma batalha, mas poderiam preparar uma emboscada. Sabendo quantos soldados acompanhariam o séquito, puderam contratar cinco vezes mais mercenários para a emboscada.

A ideia era matar todos. Mas o acaso e o destino às vezes agem. Um imprevisto, uma questão burocrática ou uma audiência. Ninguém sabe. No último momento, o senhor teve que adiar sua partida. Porém, sua esposa queria chegar um dia antes do casamento para ajudar a preparar a irmã para as bodas e insistiu em fazer a viagem antes. Ela partiu com a filha e a comitiva. O funcionário não teve tempo de avisar sobre a ausência do senhor. A emboscada ocorreu como planejado. As estradas eram seguras e não havia porque esperar um ataque tão numeroso.

Quando o senhor partiu, um dia depois, encontrou a caravana de sua esposa. Sinais de uma batalha feroz. Para cada soldado seu que estava morto, havia pelo menos dois ou três mercenários caídos. Mas ficava claro pelos sinais na terra que eram muitos atacantes e que tiveram a vantagem da emboscada. Um grito de ódio e dor irrompeu de seu peito ao encontrar o corpo da esposa. Ao seu lado, jazia um mercenário. Uma facada no pescoço, que o matou, e outra nos testículos. Sua esposa lutou até o fim. Os corpos dos soldados foram queimados e suas memórias reverenciadas. Sua esposa foi levada de volta para a cidade, onde iria descansar no mausoléu da família. Mas algo o perturbava mais até do que o assassinato da esposa ou saber quem era o responsável pelo ataque. O corpo da filha não estava entre os cadáveres. Buscas foram feitas nas imediações mas nada foi encontrado. Teria sido levada? Por quem? Para onde? Por que? 

As investigações foram intensas. Apesar de não terem chegado à raiz da conspiração, todos aqueles agentes fazendo perguntas assustaram os conspiradores, que não mais tentariam nada e, de certa forma, já estavam satisfeitos pela dor que haviam causado ao desafeto.

A história poderia ter terminado por aí. Mas um personagem mudaria tudo. Não falta alguém nessa minha pobre narrativa? Alguém que apareceu em destaque no início? O lobo que acompanha a estátua do homem.

Era uma noite de lua cheia e ele caminhava sozinho pelas colinas próximas da fortaleza. Ele não via perigo. Mesmo os conspiradores não teriam coragem de chegar tão perto de sua fortaleza. Foi quando deu de frente com um magnífico lobo cinza. O animal parecia ter surgido do nada. O homem o admirou. Nenhum ser humano teria chegado tão perto dele sem ser percebido. O senhor levou a mão ao cabo da espada, pronto para se defender de um ataque. Foi quando vivenciou uma das mais estranhas experiências de sua vida, que o levou mesmo a duvidar de sua sanidade. O lobo uivou baixo. O uivo chegou aos seus ouvidos como chegaria aos ouvidos de qualquer pessoa. Mas em seu cérebro, o uivo foi decodificado como palavras humanas. Tão claro quanto qualquer outro homem falava com ele. De início, pensou ser um truque de um ventríloquo, como ele já havia presenciado em salões e circos. Mas não. Ele ouvia os uivos pelos seus ouvidos. E não vozes humanas. Mas em seu cérebro, elas eram entendidas com clareza. E o lobo lhe disse:

"Não tema, senhor. Você não me conhece mas eu o considero um amigo e tenho uma dívida com você. E agora, pretendo começar a pagá-la. Provavelmente, o senhor não se lembra. Mas há muitos anos atrás, quando eras um soldado, você e seus homens encontraram uma toca de loba. Ela estava faminta e machucada e não conseguia sair para caçar. Ela e os filhotes morreriam Alguns de seus homens até queriam matá-los imediatamente. Mas o senhor não deixou. Deu a carne de sua própria caça a loba, que pode então se recuperar e amamentar seus filhotes. Eu sou descendente de um desses filhotes e sua história não foi esquecida por nós".

De fato, ele não se lembrava. Essa história havia acontecido há tantos anos, quando ele era ainda oficial. Ele alimentou a loba por piedade, mas também por causa das histórias sobre um antigo e poderoso império que já não mais existia. Fora o maior e mais poderoso império de todos os tempos. A lenda contava sobre dois irmãos gêmeos que foram abandonados e encontrados por uma loba. A loba os amamentou e os salvou da morte. Depois, foram criados por um pastor, cresceram e fundaram a cidade que daria origem ao lendário império. Se uma loba tinha sido tão importante na história de um império tão poderoso, quem poderia imaginar quão importante uma loba seria para um reino? Por mais estranha que fosse a situação, ele perguntou:

"Como posso te entender? Você me entende?"

"Sim, senhor. Te entendo. No passado distante, homens e lobos falavam a mesma língua. Os homens pararam de falar conosco. Mas nós ainda podemos falar com alguns de vocês. O senhor é um guerreiro, como lobos são guerreiros. Então, eu sabia que se usasse a língua antiga, sua memória ancestral iria entendê-la. Seus ancestrais vieram do leste e do norte. Viveram na neve, lutaram contra o frio. Suas origens são tão selvagens quanto a minha, por isso, podes me entender".

"E que você deseja?"

"Ajudá-lo."

"Ajudar, como?"

"Como o senhor, sou senhor do meu povo. Há muitas luas, um de meus lobos caçava mais ao norte. É raro fazermos isso sozinhos, mas dessa vez ele se empolgou em uma perseguição. Ele sentiu o cheiro de muitos homens e se escondeu. De onde ele estava, ele viu homens na estrada que carregavam um símbolo que o ensinei a respeitar. Seu brasão. Mas, entre as árvores e fendas de desfiladeiros, estavam outros homens. Muitos mais. Eles atacaram os que vinham pela estrada. Seus homens. Ele pensou  em entrar na luta, mas um lobo faria pouca diferença. Ele viu os homens que vinham pela estrada lutarem bravamente, mas sucumbirem ante ao número de atacantes. Viu uma mulher defender com a ferocidade de uma loba sua cria, antes de cair esfaqueada muitas vezes. E viu a criança humana. A criança que a mulher lutou tanto para proteger. Ela não foi morta, mas foi levada com vida por um homem que chegou apenas depois da batalha ter terminado. Meu lobo voltou e me contou tudo. Desde então, eu queria te contar sobre isso. Mas duas coisas precisavam acontecer. Eu precisava encontrá-lo sozinho e em uma noite como essa, pois apenas na lua cheia a língua antiga pode ser entendida pelos homens, mesmo guerreiros como você. Em qualquer outra situação, mesmo sua memória ancestral não se lembraria das palavras."

"E o que mais você precisava esperar? Eu estou procurando minha filha há muito tempo."

"Isso de nada adiantaria, meu senhor. Seus agentes tem feito o melhor possível, mas não há pistas a seguir. Ao menos, não para os humanos. Desde o que ocorreu, meus melhores rastreadores seguem a pista dos raptores de sua filha. Há apenas dois dias eles retornaram de sua longa jornada. Sua filha está sendo mantida em uma fortaleza que demorou seis noites para ser alcançada por eles, na direção onde o sol nasce".

Isso fazia sentido. Nessa direção, mais ou menos nessa distância, ficava a fortaleza de um antigo rival. Eles haviam assinado um tratado de paz, mas o senhor nunca acreditou na sinceridade do antagonista. Por outro lado, também não acreditava que ocorresse um ataque daqueles. E, de qualquer forma, ainda havia um mistério. Como ele sabia da caravana? Isso o lobo não podia responder, mas poderia ser descoberto depois. O que realmente importava era resgatar a garota.

O homem nem mais pensava na loucura que era tudo aquilo. Em minutos, ele estava discutindo uma estratégia de resgate com o lobo. Dois líderes magníficos, de homens e de feras. O senhor dos homens estava decidido a destruir o inimigo pela infâmia, pelo ataque traiçoeiro e pela morte da esposa. Mas antes ele tinha que tirar a filha da fortaleza. Como faria isso? Nisso, mais uma vez, o lobo o ajudaria.

No outro dia, chamou os homens de maior confiança. Disse que por meio de um informante havia recebido a informação sobre a localização de sua filha. Isso sendo verdade, deveriam não apenas resgatá-la mas também capturar ou matar os responsáveis. Porém, para não iniciar uma guerra sem ter algo concreto e não colocar em risco a vida da menina, antes do ataque, ele a resgataria. Houve protestos. Ele não deveria se arriscar. Deveria ser enviado mensageiro com uma proposta de resgate. Não. Os homens indagaram. Como entraria na fortaleza? Quem era o informante? Por motivos óbvios, ele omitiu essa informação. Afinal, às vezes, até ele duvidava da própria sanidade. 

O plano foi traçado. O grupo de ataque seguiria antes, um caminho mais longo, es e posicionaria na floresta aos fundos da fortaleza. O senhor da guerra e seu informante entrariam  na fortaleza, descobririam a garota, sairiam de lá com ela. Tentariam abrir os portões e dariam sinal para o ataque.

E assim foi, sempre com a identidade do informante mantida em segredo. Aliás, fosse um humano, talvez o senhor da guerra talvez desconfiasse de uma traição. Mas estranhamente sentia uma grande confiança no lobo. O lobo conseguia se comunicar com outros animais. Assim, descobriu uma passagem esquecida que chegava aos porões do castelo. De lá, o lobo e o homem subiram escadas, passando por masmorras escuras. O homem levava uma espada curta, adequada para locais fechados. Ele teve que usá-la duas vezes, quando cruzaram com três guardas na área das masmorras. O terceiro teve a garganta dilacerada pelo lobo. Fora isso, seguiram sem problemas, escondidos pelas sombras, até um quarto na ala oeste da fortaleza. Como podiam saber exatamente onde estava a garota. Havia o faro apurado do lobo. O pai da garota havia levado uma peça de roupa não lavada da filha, e o lobo a usava para orientar os caminhos a serem seguidos. Mas além disso, o lobo podia se comunicar com outros animais. Uma ave, um pequeno réptil ou um rato. Cada um deles informando sobre uma pequena humana que havia chegado a pouco tempo na fortaleza. O pai quebrou o trinco de forma cuidadosa. Com ainda mais cuidado, acordou a criança. Palavras não podiam traduzir a alegria dos dois. De qualquer forma, não era o momento para palavras. Tinham que escapar dali. Guiados pelo lobo, voltaram aos porões e fizeram o caminho inverso. No túnel, sentindo-se mais seguros, iniciaram uma rápida conversa. A filha contou sobre o ataque e o rapto. Contou também que ouvira o líder dos homens que haviam atacado explicar aos outros porque poupá-la. Em algum momento, no futuro, a ideia era se casar com ela e reclamar parte das terras de seu pai. Bom. Ele receberia sua parte de terra. Uma cova rasa. Já fora da fortaleza, o homem entregou a filha ao irmão mais velho e mais dois de seus homens de confiança. Eles iniciaram o caminho de volta imediatamente para suas terras. Mas o senhor da guerra retornou com o lobo pela passagem. Dessa vez, seguiram para os portões. Os sentinelas olham para fora e não esperam ser apanhados pelas costas. Uma flecha de fogo cortou os céus. O sinal estava dado. O portão foi aberto. Não era exatamente uma guerra justa. Os homens na fortaleza foram pegos de surpresa. Mas eles haviam feito pior quando emboscaram a caravana. Ainda assim, a luta foi feroz. Espadas, machados, lanças, martelos e escudos. Cortando, estocando, quebrando. Crânios e ossos fraturados. Músculos perfurados. Gritos de ódio e dor. Ao final, o senhor da província estava frente a frente com o líder da conspiração. Um duelo final. O conspirador atacou de forma abrupta. Seu golpe foi contido com força pela espada do senhor da guerra. A peleja durou alguns instantes. Até que em um golpe rápido da esquerda para a direita, o senhor da guerra cortou o pescoço do inimigo, quase separando a cabeça do resto do corpo. A luta acabou. Não houve misericórdia. Um homem foi apanhado fugindo. Era o funcionário traidor. Ele contou tudo. Pediu perdão. Não recebeu.  Mas em troca de uma morte rápida, entregou o nome de outros conspiradores. Eles seriam caçados. Por fim, tudo acabou. Mas não sem uma última dolorida baixa. O lobo também participara da luta. Dilacerou muitas gargantas inimigas. Mas no último momento da batalha, uma flecha disparada a esmo o acertou de forma fatal. O senhor da guerra ainda se ajoelhou ao seu lado e ouviu pela última vez sua voz e entendeu suas palavras.

" Meu senhor. Não se aflija. Já vivi muito mais do que a maioria dos lobos. E só vivi porque um dia você teve piedade de uma loba e seus filhotes. Foi uma honra pagar a dívida dos meus antepassados lutando ao seu lado".

Depois daquilo, o lobo se tornou o símbolo da província e caça-los foi proibido. Anos depois, quando o herdeiro quis homenagear o pai com uma estátua, a filha resgatada disse ao irmão que o lobo também merecia ser lembrado. E assim foi construída a estátua, como uma memória em pedra de dois guerreiros natos.

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