Uma busca. Parte 1. O sonho.

 O velho senhor da guerra acordou antes do sol nascer. Foi até a janela do seu quarto e sentiu o vento frio do final da madrugada. O sonho se repetira novamente. Era a terceira vez apenas essa semana. Uma mulher o chamava pelo nome, pedia ajuda. Não o nome que usava, mas o nome que foi dado a ele pelos seus pais naquela aldeia distante em um tempo há muito passado. De alguma forma, ele sabia. Ele a conhecera apenas como uma recém-nascida e nunca mais a tinha visto. Isso foi há 40 anos. Mas ele sabia que era sua irmã.

Ele abandonou sua selvagem tribo do oeste pouco antes de completar 20 anos. Era o mais velho dos filhos de seus pais. A mulher, quando ele partiu, a mais jovem. 

Ele foi para o leste, se aventurar nos reinos e impérios lendários, onde ouro, vinho e mulheres eram abundantes. Havia exageros nos relatos, mas ele se saiu bem. De soldado mercenário ascendeu aos poucos, até se tornar o mais poderoso senhor da guerra de um importante reino. Era o mestre de muitas terras e muitos homens. Respondia apenas ao rei. Ainda assim, era quase uma formalidade. Os senhores da guerra eram, na prática, os verdadeiros soberanos de suas terras. E ele era o mais poderoso.

Mas... e o sonho? Eles começaram há uns três meses, logo após sua esposa falecer. Sim. Ele havia se casado com uma boa mulher do sul, de terras quentes e selvagens. Eles tiveram filhos e filhas. ela era culta e corajosa. Ela o ensinou os segredos das letras e números. Ele entendeu como isso como aquilo era importante, por isso em suas terras todos deveriam aprender ao menos a ler, escrever e contar. Ele entendeu também que suas terras seriam mais fortes se ele governasse a partir da orientação de filósofos e estudiosos, e assim se tornou um dos homens mais temidos e respeitados do continente. 

Mas... e o sonho? Não era coincidência eles começarem após a morte de sua esposa. Ele sentia um vazio e uma vontade grande de voltar para a estrada, talvez para o Oeste. Por isso a irmã o chamava? 

Ele convocou os filhos e filhas, os conselheiros e disse que partiria. Houve protestos, mas antes de ser senhor da guerra ele era senhor de sua vida. Estava tranquilo em relação a deixar o comando das terras à filha mais velha, que seria apoiada pelos irmãos e irmãs mais jovens. 

Partiu dois dias depois. Antes do sol nascer e com o ar frio contra o rosto. Deixava muitos confortos para trás, mas não se importava. Levava sua espada, adaga, machadinha, arco e flechas. Uma boa quantidade de moedas de prata e ouro. Partiu na sua melhor égua.

Cavalgou muitos dias até o mar interior que, na prática, dividia o leste do oeste selvagem do continente. Cruzou o mar em um barco de pescadores. O porto na margem oeste era a última cidade. Após isso, apenas a floresta cinza, com suas feras e tribos indomáveis. Ele havia passado por ela há 40 anos, mas ainda sabia se virar muito bem. Não se tornou menos selvagem por viver entre os civilizados, como um lobo não se torna menos lobo por conviver com com cães. 

Falando em lobos e cães, ao terceiro dia após partir do porto que ocorreu o seguinte. A noite chegou rápido. Mas ainda no final da tarde já havia percebido sons estranhos na floresta. Não eram animais e nem povos da floresta. Eles andavam de forma desajeitada, faziam barulhos que aqueles que conheciam a floresta não faziam. Provavelmente bandidos que haviam fugido do leste e moravam na cidade portuária em que chegara. Ouviram sobre um viajante solitário que entrara na floresta. Que ele pagara provisões, estalagem e estábulo com moedas de prata. Um homem grisalho e sozinho, com prata e uma bela égua. Dinheiro fácil. Não se perguntaram como ele tinha coragem de adentrar sozinho na floresta. Louco, pensaram.

O velho senhor da guerra parou em uma área onde as árvores estavam mais afastadas e formavam uma pequena clareira, mas há apenas uns dois passos de onde a floresta voltava a se fechar.

O viajante amarrou sua égua, acendeu a fogueira e sentou-se para mastigar alguma coisa. Ouviu o farfalhar das folhas caídas. Passos pesados e desajeitados. Eram quatro. Ele se levantou de um salto, virou-se e arremessou sua machadinha, que acertou em cheio a testa de um dos ladrões, que caiu morto. Os outros três pararam e o velho falou. "Dou uma chance a vocês. Retornem agora. Enterrem o corpo de seu companheiro caído. Ou deixem aí. Para mim, tanto faz. Mas desistam agora, ou juntem-se a ele no mundo dos mortos". Um deles, provavelmente o líder, respondeu com bravata. "Cão velho. Íamos te matar rápido. Mas agora, não teremos pressa". O velho apenas sorriu e com dois passos desapareceu na vegetação. 

Os três ladrões entraram no mato. Separaram-se para tentar achar sua vítima. A escuridão não era total, mas a luz das estrelas e da lua chegava fraca através das árvores. Alguns minutos depois, um grito de dor lancinante cortou a floresta. Um dos ladrões correu em direção ao som. Tropeçou em  algo. A luz fraca da lua permitiu que ele reconhecesse um dos companheiros. Estava morto com um golpe de faca na base do crânio. Morte instantânea. Nem dor sentiu. Ele ainda não sabia, mas esse teve sorte. Continuou sua busca em direção ao som, que fraquejava. Quando chegou, encontrou o outro companheiro. Este não havia recebido o mesmo golpe rápido. Um corte vertical rasgara seu ventre. Estava de joelhos, chorando e pedindo ajuda aos deuses e tentando, pateticamente, empurrar as vísceras para dentro do seu corpo. As mãos imundas de sangue. Sentia angústia profunda porque quando conseguia empurrar uma parte das tripas para dentro, outras tantas escorregavam para o chão. Morreu pouco depois da chegada do companheiro.

Havia então apernas um dos quatro ladrões e a coragem já o abandonara. Não pensava mais em ouro e prata mas em salvar a pele. Não era um homem que tentavam matar, mas um demônio da floresta. O ladrão chegou na clareira. ótimo, pensou. Poderia roubar e água e fugir rapidamente. Escapar com vida e uma bela montaria. Mas assim que se aproximou da égua, uma flecha saiu com um raio da mata escura, atravessou seu olho esquerdo e atingiu seu cérebro. O velho saiu da mata, retirou a flecha, limpou e guardou. Ele pensou que poderia tê-los enfrentado de forma mais direta. Mas o risco não valia a pena. Mesmo sendo um espadachim experiente contra amadores, a desvantagem numérica precisava ser contornada com astúcia. O velho viajante estava vivo e quatro ladrões estavam mortos. Quatro cães jovens não são páreo para um lobo velho.


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