O outro mundo parte 1.
Deixo este relato pata os humanos do futuro saberem o que ocorreu. Isso, se existirem humanos no futuro, pois posso ter condenado nossa espécie à extinção. Não sou general ou ditador. Não sou rei ou imperador. Mas causei mais mortes humanas do que qualquer conquistador ou tirano que já viveu antes de mim. Se existir uma condenação após a morte, eu a mereço. Em minha defesa digo apenas que nunca tive a intenção de ferir uma única pessoa. E o que fiz não foi por terras, riqueza ou poder. Fiz pela curiosidade. Talvez tenha sido imprudente. Sim, isso sim. Fui imprudente em mexer com forças que deveriam permanecer intocadas.
Herdei uma boa fortuna de um tio quando tinha apenas 18 anos. Sendo assim, nunca precise dispender meus dias com trabalho. Nem trabalho intelectual e muito menos físico. Fui viver em uma velha mansão desse meu falecido tio, onde tomei contato com uma enorme quantidade de livros e papiros, alguns muito antigos. Meu tio passou boa parte de sua vida em viagens por várias regiões do mundo. Amazônia, Andes, África e Ásia. Visitou inúmeras pequenas ilhas do Oceano Pacífico. Esteve no Oriente Médio e no Egito. Reuniu artefatos, livros e escritos sobre antigas civilizações, mais velhas do que os sumérios e hindus. Seus nomes eram desconhecidos, mesmo para ele. Algumas devem ter possuído profundos conhecimentos sobre uma Ciência oculta e desconhecida para nós. Segundo suas anotações, a última dessas civilizações desapareceu milhares de anos antes de egípcios e sumérios terem construído suas mais velhas cidades. Porém, seus ecos teriam chegado até nossos dias. Meu tio reuniu até mesmo evidências de um pequeno grupo de pessoas que seriam descendentes diretos de algumas dessas antigas civilizações e que, em segredo, ainda praticavam ritos de uma obscura religião que florescera entre esses povos. Essa religião envolvia o culto a seres extradimensionais capazes de atravessar o véu que separa nosso mundo do deles. Isso seria possível a partir de certos rituais. Os antigos sacerdotes dessa religião seroam capazes de invocar tais seres, que poderiam ajudá-los das formas mais diversas, desde ensinando medicina ou astronomia, até ajudando na prática agrícola ou na construção de cidades. Mas segundo advertências nas anotações de meu tio, tais rituais seriam extremamente arriscados. Qualquer erro em um dos minuciosos procedimentos poderia causar um rasgo muito grande entre as dimensões, com resultados trágicos para nosso mundo.
No início, mergulhei nesse mundo por pura curiosidade antropológica. Sem a necessidade de trabalhar e sem interesse por prazeres mundanos, me dedicava a leitura por 8, 10, 12 horas por dia. Parava apenas para dormir, para parcas refeições e, eventualmente, para longas caminhadas pelo bosque da propriedade. Por vezes, durante essas caminhadas, nas partes mais profundas do bosque, entre árvores centenárias, especialmente nos finais de tarde, parecia ouvir vozes inumanas. Na época creditava isso ao vento e a imaginação proporcionada por aquele cenário um tanto sobrenatural. Hoje, penso que as vozes eram reais e me incentivavam, sem eu perceber, às ações que eu ainda viria a realizar. Mas estou me dispersando.
Com o tempo, cada vez mais ficava fascinado, obcecado até, com a possibilidade de tudo aquilo ser real. Que conhecimentos poderia acessar caso dominasse esses rituais antigos?
Depois de anos, havia lido tudo que meu tio havia escrito e reunido em sua biblioteca. Foi minha vez de sair pelo mundo em busca de mais informações. Da América do Norte até a América do Sul, nos velhos castelos da Europa, nos templos da África e da Índia, pelo mundo todo, por todos lugares em que meu tio já estivera e mais além. Consegui reunir mais informações, até que um dia, mais de 22 anos após o início dos meus estudos, consegui encontrar em uma caverna no Afeganistão um livro tratado pelo meu tio como perdido, ou mesmo um mito. Um livro escrito em um antigo idioma de uma civilização sem nome, mas traduzido para o latim. A partir dessa tradução pude aprender a antiga língua esquecida.
Foi então que reuni não apenas as condições mas também a coragem para realizar um ritual. Segui todas as recomendações para sua realização. O local deveria ser afastado de grandes cidades, de preferência sobre uma elevação. Deveria acontecer ao final da tarde e durante um alinhamento planetário específico. Vestimentas, oferendas. Tudo foi seguido. Após três horas de ritual, a lua cheia já dominava o céu noturno. Ao terminar, minha decepção foi enorme. Nada. Absolutamente nada. Sai convencido de que tudo realmente não passava de mitos e lendas. Ou, talvez, eu tivesse cometido algum erro.
Foi apenas dois dias depois que as notícias começaram a chegar pelo rádio que eu tinha na mansão. No Rio de Janeiro, centenas de criaturas monstruosas saíram do oceano. Com aparência humanoide, mas de pele e feições semelhantes a de peixes. Atacando a população, matando e dilacerando pessoas. A polícia e as forças armadas foram acionadas. As criaturas podiam ser mortas por armas humanas. Mas eram muitos. E não estavam sozinhos. Nos céus, uma estranha espiral de nuvens se formou. E de lá, milhares de criaturas semelhantes a gárgulas ou harpias da mitologia grega surgiram e se espalharam pela capital brasileira. Tudo piorou. Chegaram notícias de que isso estava se repetindo pelo mundo todo. Eu já havia lido sobre tais criaturas nos livros e tomos que pesquisara durante tantos anos. Seres de dimensões infernais atraídos pelo cheiro da carne, sangue e alma humanos. Sempre tentavam abrir as portas e janelas para nosso mundo. Algumas vezes encontravam uma brecha, uma rachadura pequena, por onde um ou outro poderia passar. Mas as grandes portas que permitiriam a passagem de muitos, só podiam ser abertas deste lado. E eu as abri. Então percebi que eu havia mesmo cometido um erro. Mas esse erro foi muito pior do que pensara. Quisera ter falhado em abrir uma porta para outro mundo. Mas meu descuido em algum ponto do ritual me fez abrir não uma, mas várias portas e janelas. E não para um mundo de seres dotados de conhecimento incomparável. Não. Abri portas para uma dimensão infernal, habitada por criaturas abjetas. Elas estão tomando o planeta. Alguns ainda tentam enfrentá-los, mas é uma luta inglória. Tenho certeza de que a humanidade será erradicada, a menos que eu tenha sucesso em uma última e desesperada empreitada. Ainda assim, tenho dúvidas.
Escondido em minha mansão, tendo tido paz até o momento. As criaturas andam pela cidade. Já devoraram todos que não fugiram. Acredito que eles não entrem na minha casa por causa de algum tipo de energia que se formou ao redor da construção depois de anos de leituras rituais feitas por mim e pelo meu tio. Estou lendo de forma desesperadas tudo que reunimos ao longo de duas vidas. Deve existir alguma forma de reverter o que fiz. Talvez eu possa salvar o que restou da humanidade e expiar um pouco da minha culpa.
Comentários
Postar um comentário